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Do Funk Machine ao Fama e agora à Negra Cor: Adelmo Casé fala sobre suas influências musicais, carreira e como chegou à Negra Cor.
21.09.2006 - 22:00:00 - www.embelezados.com.br
Por: Anderson Patric e Gérson Ribeiro

Após ganhar notoriedade nacional ao participar da 1ª Edição do reality show “Fama”, da Rede Globo, e ter lançado seu primeiro disco solo em 2004, entrevistamos com exclusividade o cantor e compositor Adelmo Casé, hoje vocalista da Banda Negra Cor, uma nova banda que surge na música baiana trazendo inovações e uma mistura de rítimos do black com o axé. Ele nos fala pouco sobre sua carreira e sobre a Negra Cor que tem tudo para se firmar no cenário da música brasileira.


Embelezados: Primeiramente, nos conte um pouco da sua carreira antes da Negra Cor. Como foi que você entrou na música? O que a banda Funk Machine representou pra você? Deu pra aprender muita coisa participando do Fama na rede globo? E a carreira solo, foi proveitosa?

Adelmo Casé: Bom, comecei tocando com 14 anos de idade em pizzaria, era percussionista e ia acompanhando outros artistas. Aí comecei a tomar gosto pela coisa e paralelamente aos estudos fui trabalhando com a música, aprendi a tocar violão e cada vez mais com o tempo fui assumindo essa coisa de cantar. A trajetória começou em Salvador, em bares, shoppings, festas fechadas comecei tocar bastante e a rodar Salvador. Em 1998 aconteceu um marco importante que foi a criação da Banda Funk Machine, uma banda de música black, música negra de Salvador e a gente sempre colocava os clássicos e as coisas novas que estavam acontecendo dentro deste cenário da música soul brasileira, sempre priorizando essa galera que já vinha fazendo esse som, Sandra de Sá, Tim Maia, Cassiano, Cláudio Zoli, toda essa galera que já trabalhava com música black a gente já veio prestigiando isso e começando a fazer um trabalho autoral que resultou em 2001 com o lançamento do disco “Negra Cor”, daí o nome da banda hoje Negra Cor, que foi uma soma do Ijexá que é um ritimo exclusivamente black que surgiu dos blocos de afoxé, uma coisa bem africana e juntou com o Funk. Em 2002 tive a participação no Fama, a banda Funk Machine tava num momento muito bom e eu podia não ter ido participar e seguir com a Funk Machine direto, mas optei por participar pois eu vi uma grande oportunidade de divulgação, de aprendizado e daí arrisquei e fui. O ano de 2002 foi muito proveitoso pra mim, pois além de estar fazendo parte de um programa da maior rede de televisão brasileira, ficar quase 90 dias enclausurado mas aprendendo, eu fiquei ali dando o melhor de mim e aprendendo com os profissionais muito competentes e convivendo também com colegas igualmente competentes e talentosos. Saímos dali e fizemos uma mini turnê que durou pouco infelizmente, mas também nesse período surgiram propostas de trabalho para uma carreira solo, então comecei a fazer meu disco solo que foi lançado em 2004. Foi um disco independente que saiu com a minha cara, com a cara de um trabalho que eu queria fazer mesmo, era o que eu pensava de música no momento.

Embelezados: Banda nova surgindo no cenário da música baiana. Como e quando surgiu a idéia de criar a Negra Cor?

Adelmo Casé: Foi no ano passado quando as coisas no Rio de Janeiro estavam um pouco difíceis e como eu estava indo sempre pra Salvador, conversei com dois caras que pra mim são muito importantes não só na minha vida profissional como também na minha vida pessoal, são pessoas que acreditaram no potencial do Adelmo Casé artista e abraçaram o Adelmo Case como pessoa também, que é o Manno Góes e o Paulo Borges. Foi depois de uma conversa com o Manno Góes que ele me pediu pra apresentar meu trabalho pro Paulo Borges, que foi a pessoa que deu uma nova vida ao Jammil, de imediato aceitei e disse que com certeza estaria em boas mãos e se ele quisesse fazer um trabalho com a gente seria maravilhoso. Daí surgiu a oportunidade de fazer um trabalho dançante com música da Bahia misturada com minhas influências, aí já pensei em chamar uma galera que curte esse tipo de som, que é a galera da banda que também tem essa influência de música black, musica popular brasileira e disse que topava esse desafio que até então em Salvador ninguém tinha levantado essa bandeira de misturar o axé com a música negra, com o soul, com o hip hop, com o black, com o funk e a presença de um DJ na banda também ficou como um diferencial e eu falei que queria montar com essa estrutura, com DJ, com metais, com muita percussão que além de tocar timbau na frente tenho 3 caras muito legais que me acompanham na percussão que estudam rítimos africanos, rítimo cubano e acrescentam demais a banda além de contar com um baterista que é excepcional. Aí o trabalho começou fluir e em novembro do ano passado a Negra Cor começou a colocar a cara na rua. Fizemos os ensaios (temporadas) em Salvador de novembro até fevereiro e a banda foi muito bem aceita graças a Deus e começamos a tocar fora em grandes eventos, tocamos no “Abre Alas” que agora faz parte oficialmente do carnaval de Salvador, tocamos na Trivela do Asa em Belo Horizonte, no Babado Elétrico na Paraíba e estamos fazendo eventos grandes agora, tivemos no festival de Lençóis onde tinham 7000 pessoas na praça curtindo o som da Negra Cor e estamos muito empolgados em fazer um som bom. Tivemos a música “Barulhinho Bom” como a primeira música de trabalho que é de autoria minha e do Manno Góes e agora estamos trabalhando a música “Vem me Buscar” que já estava no disco da Funk Machine e demos uma nova roupagem a ela com a presença do DJ, com os metais muito forte e a percussão bem presente mesmo. Hoje a gente está muito feliz com o trabalho da Negra Cor.

Embelezados: Teve alguma coisa que te decepcionou nessa trajetória de anos de carreira? Houve alguma coisa que não correspondeu as suas expectativas?

Adelmo Casé: Ah, isso bate com certeza, porque pra quem não nasceu em berço de ouro, as coisas são muito difíceis pra quem vive de música. Eu estudei paralelamente, me formei em Direito em Salvador e tinha propostas para continuar trabalhando com a área jurídica, só que o meu sonho sempre foi música, eu descobri isso e é aquela história, que parece um jargão, uma coisa meio piegas, mas a música escolhe você mesmo e quando você faz uma coisa que te dá felicidade, te dá realização, pode até não estar te realizando financeiramente em alguns momentos, mas a sua felicidade é a coisa mais importante e a felicidade é um meio, não é o fim e se você está afim de fazer alguma coisa, se preocupe com o futuro, mas não ache que o futuro é tudo, que o fim é o resultado, não, o resultado já está acontecendo, a cada público que você conquista, a cada sorriso, a cada fã que você conquista nas comunidades do orkut, a cada manifestação de carinho por você, isso que é a maior riqueza do artista, conseguir mostrar sua proposta musical para as pessoas e ouvir delas que adoram seu som, adoram seu rítimo, suas composições. Vieram vários altos e baixos mas eu sempre pedi a Deus que me desse força para superá-los, eu não queria desistir, eu acho que é a coisa que eu melhor faço, eu poderia fazer outras coisas mas é o que eu me enxergo fazendo, vejo meu futuro, vejo a minha música tocando cada vez mais e estamos com muito humildade buscando isso com a Negra Cor que completa um ano agora em novembro.

Embelezados: E para o carnaval, quais são os planos? A Negra Cor vai puxar algum bloco em Salvador?

Adelmo Casé: Já estamos fechado com o bloco A Novidade para um dia de carnaval que além da Negra Cor vai contar também com a Carla Cristina (ex – As Meninas) e com a banda “Samba eu, Você e a Sua Mãe”, banda de samba tradicional de Salvador. Fora isso temos algumas propostas para fazer o carnaval fora de Salvador, temos propostas do Maranhão e de Águas de Lindóia-SP, e se der pra fechar tudo vai ser maravilhoso, pois a intenção é de tocar os 5, 6 dias de carnaval.

Embelezados: Tem alguma música que você gosta muito de cantar, que tem que estar sempre no repertório do show?

Adelmo Casé: Tem sim. É a “Jorge de Capadócia”. Eu acho uma irreverência, acho São Jorge um guerreiro e ele representa essa coisa que todo músico tem que é acreditar num sonho, porque viver de arte no Brasil é acreditar num sonho o tempo inteiro, arte não é exata, é surpresa, é lúdico, é aquela coisa que te surpreende tanto pra pior às vezes quanto pra melhor, viver de arte é isso, ser sempre sonhador com a cabeça nas nuvens e os pés nos chão. Buscamos fazer um trabalho que tenha qualidade e atinja as pessoas, que tenha um canal de comunicação com as pessoas e com a Negra Cor eu vejo isso muito nítido, eu vejo que as pessoas estão curtindo e estão dividindo o show comigo e eu mudo muitas vezes o repertório porque além do que a gente gosta de tocar a gente procura adequar também com o que o público gosta de escutar.

Embelezados: Além de cantor você é compositor, você gosta mais de criar as melodias ou a poesia das músicas?

Adelmo Casé: Esse ano pra mim foi revelador, eu sempre fiz música e letras, sempre, não por querer isso, por no momento de criação da composição pra mim sempre foi um momento do Adelmo Casé com o violão, sempre acontecia de não estar com alguém do lado, estar sempre sozinho. Agora graças a Deus abri minha cabeça para as parcerias, então já fiz parcerias com Edu Casanova que é um grande compositor, com Saul Barbosa e Gerônimo e muitas outras e isso está me trazendo uma energia boa porque você divide uma responsabilidade e soma o que há de melhor de um com o que há de melhor do outro e é o público quem ganha.

Embelezados: Você acha que as influências musicais que você trouxe para sua carreira são as mesmas do início dela ou mudou alguma coisa hoje em dia?

Adelmo Casé: Não, são diferentes. Com o passar do tempo a gente vai mudando muito com as influências que a gente escuta. Eu procuro escutar o máximo de som possível, é claro que com alguns a gente tem mais afinidade, mas eu acho que é obrigação do músico, do compositor, do cantor, de todo mundo que trabalhe com música saber do que está rolando agora em São Paulo, em Nova York, em Salvador e desses sons você tirar proveito disso também, porque você tem que estar como uma esponja, absorvendo as idéias, muitas vezes você não muda mas tem que estar por dentro do que está acontecendo, do fenômeno que está aparecendo. Eu por exemplo respeito muito essa coisa forte que tem no interior do sertanejo e do forró, a medida do possível eu gosto de muita coisa de qualidade também e agente vai sempre aprendendo. Fico sempre na internet, que hoje sem dúvida é uma das maiores fontes que a gente tem e nela fico sempre procurando o que está acontecendo no mundo, acho que é uma obrigação mesmo do cantor. Então eu acho que as minhas influências do começo pra hoje em dia mudaram muito, até porque a música mudou muito, você vê por exemplo o formato do hip hop como ele ganhou espaço e hoje entra nas classes A e B, dez anos atrás isso não existia.

Embelezados: Qual é a avaliação que você faz de sua carreira, da primeira banda até este momento na Negra Cor?

Adelmo Casé: Eu diria que foram passinhos de formiga (risos) que deram em lugares e ainda vai dar em algum lugar. Eu acho que o que eu fiz até agora na minha vida foi caminhar com humildade sem pisar em ninguém. Isso é um aprendizado pra mim, que eu me orgulho muito disso, quando coloco a cabeça no travesseiro eu sei que nunca fui desleal com nenhum músico que passou pelas minhas bandas, com meus parceiros, sócios, sempre procurei ser o mais correto com todo mundo, nunca você agrada à todos, mas sempre fica alguma ruga, alguma coisa que você nem ficou sabendo e nem tinha culpa naquilo mas não adianta o mundo é assim, só de se vestir você já incomoda alguém. Mas uma coisa muito importante na minha vida é sempre caminhar devagar e com muita humildade.

Pergunte ao ídolo

O site Embelezados abre em suas entrevistas, um espaço para que os fãs perguntem ao seu ídolo. Abaixo, algumas perguntas que nos foram enviadas e que levamos até a Negra Cor.

Luana Michelinni, de Belo Horizonte, pergunta:
Por fazer parte de uma banda, o que é mais difícil na convivência em grupo?


Adelmo Casé: O que é mais difícil na convivência em grupo é a gente conseguir ter a habilidade de ouvir as opiniões e processar isso de uma forma natural, porque nenhuma cabeça é igual a outra. A gente pega, ouve as opiniões e vê o que fica melhor pro trabalho, pro público que a gente quer atingir. Tem muitas vezes que existem muitas boas intenções mas que não vão poder ser bem aproveitadas naquele momento. É aquela coisa de você ter habilidade de captar as sugestões das pessoas, os seus posicionamentos e colocar isso em prol do trabalho, ou seja, que não fique pendente pra nenhum dos lados e veja sempre em primeiro plano o som da banda, o sucesso da banda.

Dayllia Macedo, de Feira de Santana – BA, pergunta:
Quais são seus cantores e bandas preferidas?


Adelmo Casé: Eu teria que ficar aqui pelo menos 40 minutos pra falar de tudo, mas quem me influenciou muito na parte de MPB foi o Djavan, partindo já pro Soul music a gente tem muita influência da banda Black Rio, do Ed Mota, do Cassiano, do Tim Maia, o Zoli que é um cara fantástico, a Sandra de Sá que levanta essa bandeira com muito respeito, com muita vontade até hoje, Paula Lima e toda essa galera também que de dez anos pra cá vem fazendo excelentes shows mas as influências de fora também foram muito importantes, Stevie Wonder, Anita Baker, é tanta gente..... Aretha Franklin, é muita coisa, gente fala mas sempre acaba esquecendo alguma, mas a gente sempre procura trazer positivamente influências para o trabalho num aspecto de trazer uma qualidade, uma marca da música negra, pois o objetivo da Negra Cor é valorizar a cultura negra seja ela onde for, pois existem diferentes manifestações no Brasil, mas no final sempre tem haver a postura de um com outro. A música baiana é música negra, não pode esquecer isso. Tem gente que diz “ah, mas você fica entre o axé e o black”, não é entre o axé e o black, o axé é black, se tem tambor é música negra, porque veio da África. Então a gente vê que as bandas baianas utilizam a percussão que é uma existência negra, talvez a primeira manifestação de música foi pelo tambor, então a gente prioriza muito isso.

Embelezados: E agora com a Negra Cor, você tem alguma referência no Axé também?

Adelmo Casé: Ah, com certeza. Os trabalhos de qualidade principalmente das bandas tribais formaram muito a nossa cabeça, a gente cresceu ouvindo Olodum, Ilê Ayê, Filhos de Ghandy, Timbalada, então nesses anos todos a gente foi vendo as manifestações tribais que aconteciam em Salvador, fora os trabalhos já tido como mais pop como o da Daniela Mercury que é uma excelente intérprete, uma ecxelente cantora, a Ivete. A gente vê em Salvador agora que as pessoas estão se preocupando muito em fazer um som de qualidade, antenados como o som que está tocando no Brasil e no mundo, a gente vê o Babado Novo, vê o Jammil que trás mais o Rock and Roll, mais Ska pra dentro da música baiana, cada um com a sua marca. Isso que é importante, a gente vê as pessoas buscando a sua verdade, isso que é legal na música baiana. Você vai num show do Asa você sabe que vai encontrar aquela marca do Asa de Águia, você vai num show do Chiclete você sabe que a voz do Bell é uma marca inconfundível, tem o Ara Ketu com um som tribal também. Então a moçada hoje está toda empenhada nisso de sempre colocar a música baiana no topo, não que a gente queria ser primeiro não, é que a música baiana tem muita energia vibrando em torno dela, tem muita criatividade. O baiano já é muito criativo e a gente com certeza está fazendo parte desta família criativa e estamos tentando trazer alguma coisa nova para a música baiana.

Marcelle Baptista Antunes, de Vila Velha – ES, pergunta:
Você tem algum ritual antes de entrar no palco?


Adelmo Casé: Basicamente eu tenho que aquecer a voz, que é o que todo cantor tem que fazer pra preservar a voz, que quanto mais cuidado ela tiver maior vai ser a vida útil dela. Eu também sempre faço minhas preces porque eu gosto de estar em harmonia com o lado espiritual, pois acredito que como mexemos com pessoas, mexemos com alma, e as almas necessariamente se você dá um caminho pra elas, mostra uma energia positiva uma reação positiva há. Então eu peço sempre pra Deus, para os Orixás, pra me iluminarem para eu dar o melhor que puder naquele momento para as pessoas pois sei que elas respondem com isso também. Muitas vezes é isso que falta em alguns shows e a resposta acaba não sendo muito boa, então quando a gente está em harmonia, está com vontade de crescer e fazer um trabalho bonito e honesto, sincero e humilde, acaba acontecendo essa energia toda, essa explosão de alegria na galera. Então o ritual praticamente é esse, fazer essas preces pra que a gente possa trabalhar e agradecer sempre à Deus por trabalhar com uma coisa que a gente ama que é a música e estar conquistando os corações das pessoas e vendo elas alegres e poder passar uma mensagem positiva fazendo com que elas voltem pra casa mais feliz.


Redação Embelezados




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